Nossa equipe percorreu três estados que enfrentam uma seca histórica.
SP, RJ e MG pagam o preço da poluição descontrolada e do desperdício.
A represa Billings abastece 1,6 milhão de pessoas na região do Grande
ABC, na grande São Paulo. O governo do estado quer ampliar a captação
das águas do reservatório, mas a proposta gerou polêmica. Boa parte das
margens da represa estão ocupadas por invasões e é grande a quantidade
de lixo na água.
O maior ponto de poluição da represa fica na barragem que faz a
transposição da água do rio Pinheiros. A quantidade de material orgânico
é impressionante.
A bióloga Marta Marcondes fez a medição do oxigênio na água, em um
braço mais limpo da Billings. O ideal para que haja vida é acima de
8mg/l, mas o máximo registrado na represa foi 7,3mg/l. Em uma região de
água mais poluída, a quantidade de oxigênio na Billings é de apenas
1,8mg/l. Isso significa que não há vida na água.
No ponto onde fica a usina de transposição de água do rio Pinheiros,
região mais poluída da represa Billings, nem as bactérias que se
alimentam de lixo orgânico conseguem sobreviver. O nível de oxigênio na
água é de apenas 0,5mg/l.
Embora a sujeira assuste, no lodo que se acumula no fundo da represa há
um perigo ainda maior. “Foi feito um estudo em 2010, por uma equipe da
USP, e foi encontrada uma série de metais pesados, cádmio, zinco, uma
série deles. Quando o humano, que está no topo da cadeia, se alimenta
deles (peixes), vai ficar com o metal que se acumulou nos tecidos desses
animais”, explica Marta Marcondes.
A bióloga recolheu amostras de água da represa para análise. Na área
onde fica a usina, a presença de coliformes fecais está mil vezes acima
do tolerado em águas próprias para o consumo humano.
A Sabesp diz que tratar a água é mais caro do que evitar a poluição,
mas nesse momento é mais rápido tratar do que resolver o problema. “A
poluição é sempre uma preocupação para nós, mas nós temos toda a
tecnologia necessária. O sistema de tratamento é feito justamente para
isso. Para que você possa pegar uma água que está reservada em algum
lugar e transformá-la em água potável. Temos pontos da represa onde é
mais crítica a questão da poluição e outros pontos menos críticos. Onde
nós estamos captando, próximo da Serra do Mar, a qualidade da água é
muito melhor”, explica Marco Antonio Barros, superintendente de produção
da Sabesp.
Lixo e esgoto são jogados na represa Billings desde o início das
ocupações, há 40 anos. Além das ocupações irregulares, a mata que cerca a
Billings se transformou em um cemitério de carros roubados, há carcaças
e pedaços de veículos espalhados por vários metros, a poucos passos da
água.
Rio de Janeiro
No Rio de Janeiro, moradores de Mesquita quebram o asfalto da rua para
fazer ligação direta nas tubulações da Cedae, já que a água não chega
nas casas. Além da água, eles constroem um sistema de esgoto, por conta
própria.
Na região, a Cedae instalou a tubulação e os relógios para a cobrança,
mas a água nunca chegou. Mesmo quem nunca teve a ligação recebe a conta
mensalmente. Os moradores se recusam a pagar e garantem que já foram
feitas inúmeras reclamações.
No recreio dos Bandeirantes, falta água na casa dos mais pobres e dos
mais ricos. Nem mesmo o poço artesiano resolve o problema, já que parte
do bairro não tem saneamento e o esgoto dos córregos contamina o lençol.
Em um condomínio do bairro, a conta mensal com a compra de água de
carros-pipa chega a R$ 24 mil. Os moradores dizem que já cansaram de
reclamar com a Cedae, que continua enviando a conta de água no valor de
R$ 4 mil.
A Companhia de Água e esgoto do Rio de janeiro não quis gravar
entrevista e mandou uma nota dizendo que nos próximos quatro anos vai
construir 17 novos reservatórios na Baixada Fluminense. Dois
reservatórios no Recreio dos Bandeirantes serão entregues em 45 dias. A
empresa informou ainda que não há registro de falta d’água na região do
Recreio. Sobre as queixas de cobrança indevida de contas, a Cedae pediu o
número de registro de todos os entrevistados, para descobrir porque o
problema está ocorrendo.
Como mostrou a reportagem, os moradores dizem que já reclamaram várias vezes sem conseguir resposta.
Minas Gerais
O Sistema Paraopeba, que abastece a região metropolitana de Belo
Horizonte, também está com o nível de água baixo. Hoje a represa está
20,5 metros abaixo do nível normal.
O mês de janeiro levou chuva para a região. Mesmo em quantidade
insuficiente para encher uma represa tão grande, a água que vem do céu
ajuda muito os agricultores. Um produtor mineiro criou sua versão de
represa na propriedade, um lago artificial, e guarda água até em
banheira velha para evitar a perda da lavoura novamente.
Belo Horizonte desperdiça 40% de sua água tratada. Os profissionais da
Copasa responsáveis por procurar esses vazamentos são chamados de
“caça-gotas”.
Uma ligação clandestina é encontrada e o trabalho dos operários começa.
Em poucos minutos, os moradores de uma comunidade próxima se aproximam
para reclamar. Eles impedem o corte de água e dizem que a ligação
clandestina existe porque não há abastecimento regular.
Fonte: G1