Um blog feito para deixar as pessoas bem informadas!
segunda-feira, 24 de junho de 2013
A presidenta Dilma Rousseff falou, mas não disse
A presidenta Dilma Rousseff falou, mas não disse
Em artigo, o
cientista político Wanderley Guilherme dos Santos analisa o pronunciamento
desta sexta e afirma que o discurso foi ineficaz e que as manifestações revelam
o maior ataque à democracia dos últimos 20 anos
Não se cura tuberculose por decreto ao fim de passeatas. Mas as gangues
de ladrões e depredadores que desde terça-feira, dia 18 de junho, receberam de
presente a mais legítima carona da sociedade – desfiles pacíficos em nome da
democracia – estão pouco se lixando. Os articuladores anônimos dos grupos
violentos de direita, neo-nazistas inclusive, e dos radicalóides sociopatas,
conhecem muito bem o tempo das políticas, mas não é o que os interessa. Para os
atraídos de boa fé para a trapaça reivindicatória, enfim, o discurso da presidente
Dilma não trouxe novidade. Investimento em saúde e
educação, ensino técnico como nunca visto, transparência na administração,
através da lei de acesso à informação, apuração de desvios administrativos, com
inédita demissão de ministros, são políticas já em vigor e rotineiras, isto é,
não há mais discussão sobre se devem ou não devem ser executadas. São políticas
de Estado, compromisso do país. Isso para não enumerar sucessivas inovações na
política social que, estupidez que o amanhã julgará, passou a ser impudico
mencionar em meios de classe de renda mais elevada.
A mensagem da
presidente arrisca ser ineficaz, do mesmo modo como são absolutamente vazias as
reivindicações marchadeiras: saúde, educação, transparência, ética na política
– sem que se indiquem os acusados de objetá-las. Por isso, as provocações
tendem a perdurar enquanto os de boa fé não se derem conta de que são
equivocadas as manifestações com tanta virulência contra o que de fato já está
em execução, obtendo variados graus de sucesso. O cerne da contestação não está
nas demandas fragmentadas. Está no ataque à democracia como sistema capaz de
prover e operar uma sociedade justa. Em outras palavras: segundo os mentores e
comentaristas convertidos os grandes feitos dos últimos governos não seriam tão
significativos, antes revelando ser a democracia, pelo menos em sua forma
atual, um desastre governativo. Recusa enfática a esse niilismo não constou,
mas devia ser crucial, do discurso presidencial.
A mensagem
subliminar dos arquitetos da desordem (com exceção do Movimento pelo Passe
Livre fora) e dos aproveitadores de todas as idades tem consistido em insinuar
que as instituições democráticas – governo representativo, parlamentos,
movimentos sociais organizados, partidos políticos – são os obstáculos à
construção de uma sociedade mais justa e livre. Golpistas crônicos, anarquistas
senis em busca de holofote, muitos jovens anencéfalos e assustados da classe
média em geral, formam a retaguarda deste exército do obscurantismo e da
violência. A essência desse arremedo intolerante de participação é uma reação à
democracia e suas realizações. Faltou ao discurso de Dilma Roussef uma
declaração de que reconhecia as manhas dos que se aproveitam das boas intenções
para conduzi-las ao inferno. E de que não se submeterá a elas.
Enquanto a
empulhação televisa continua a descrever as manifestações “cívicas até aqui
pacíficas”, no meio das passeatas, como se as apresentadoras não soubessem o
que viria ao fim da encenação, registro que, em minha opinião, se trata do
maior cerco reacionário, nacional e internacional, que este país já sofreu nos
últimos vinte anos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário