Há muito
conteúdo digital disponível, mas materiais não aproveitam as ferramentas de
forma plena e não se adequam à sala de aula
Luiz
Philippe e Fernanda contam que as atualizações dos materiais é feita de forma
ágil e dinâmica, o que melhora o aprendizado
O
desenvolvimento de materiais didáticos digitais não tem acompanhado a criação e
a adaptação de ferramentas tecnológicas para as salas de aula. Computadores
deram lugar a notebooks, já em substituição por tablets, mas a disponibilidade
de conteúdos didáticos não cresce na mesma velocidade, nem aproveita todo o
potencial das ferramentas.
A
carência de materiais adequados a todas essas ferramentas é considerada outro
entrave para o aproveitamento total das tecnologias em sala de aula. A
constatação, do próprio Ministério da Educação, fez com que o governo federal
decidisse investir na produção de conteúdos educacionais digitais.
Segundo
Mônica Gardelli Franco, diretora de Formulação de Conteúdos Educacionais do
Ministério da Educação, responsável pela área, há um esforço para integrar
todos os conteúdos já produzidos pelo ministério e outros ainda em produção a
todas as ferramentas disponíveis. Nessa lista, está o conteúdo preparado para
projetos como TV Escola, Portal do Professor, Revista Escola, e-Proinfo e Sala
do Professor.
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“Estamos
trabalhando com o objetivo de produzir conteúdo para qualquer plataforma, não
só TV, computador ou tablet. Nosso esforço é produzir um aplicativo para
acessar esse conteúdo em qualquer equipamento, inclusive em smartTV,
aplicativos para tablets e celulares”, conta.
Esses
materiais estão divididos em quatro temas: para ver, para estudar, para ler e
para interagir. A proposta é que os professores consigam abrir os programas da
TV Escola no celular ou tablet, por exemplo, exibir aos alunos e depois
utilizar os jogos e simuladores produzidos a partir dos programas.
“Uma das
cobranças atreladas ao UCA foi a produção de conteúdos. Há muita coisa
disponível, mas não necessariamente elas estão adequadas para o uso em sala de
aula. Isso dá liberdade para o professor criar seus próprios conteúdos, mas o
aproveitamento será melhor se ele já tiver isso disponível, porque essa
adequação exige muito tempo”, comenta.
Além
disso, o MEC incluiu no Programa Nacional do Livro Didático para 2014 a
exigência para as editoras de produzirem versões digitais dos livros. O
material não pode ser uma simples cópia do livro impresso – algo que aconteceu
bastante com a produção digital no início da popularização das tecnologias – e
deve oferecer vídeos, simuladores e outras ilustrações.
Conteúdo
próprio
Há dois
anos, o Centro Educacional Sigma, em Brasília, decidiu iniciar uma experiência
com o uso de tablets no ensino médio. A direção queria aliar ganhos ao
aprendizado e diminuir a quantidade de livros nas mochilas dos alunos. A
primeira dificuldade encontrada por eles foi justamente a falta de material
didático adequado à ferramenta.
Não
encontraram no mercado mais do que livros impressos convertidos em arquivo
digital e decidiram criar os próprios conteúdos. Além dos textos, há vídeos,
gráficos animados, músicas, jogos nos aplicativos que os estudantes baixam no
começo do ano, antes do início das aulas. Segundo a direção da escola, o
trabalho foi intenso, mas valeu a pena.
Os
estudantes adquirem os tablets e os conteúdos, que hoje são usados por todas as
turmas de 1º e 2º anos do ensino médio da escola. Eles não podem ficar
conectados à internet durante as aulas e precisam já levar o material
atualizado no tablet. Agora, os professores circulam mais pela sala para
fiscalizar e interagir com os alunos do que antes.
Eli
Guimarães, coordenador da área de Redação do colégio, conta que os alunos se
tornaram mais interessados no conteúdo, aprendem mais rápido e fazem mais
conexões entre disciplinas distintas. Para o professor, o livro passou a ser
mais usado e explorado nas aulas. Além disso, a postura dos docentes mudou.
“O
professor tem de ouvir mais o aluno, que confronta os conteúdos”, pondera. Ele
acredita que os colégios não podem perder a oportunidade de usar a ferramenta
na rotina escolar. “O aprimoramento que ele permite para o conhecimento
didático impressiona. A grande mudança do modelo é a construção colaborativa do
conhecimento”, define.
Mudanças
positivas
O
coordenador de Redação do colégio Sigma, Eli Guimarães, diz que as relações
entre professores e alunos mudaram depois dos tablets. Foto: ALAN SAMPAIO/iG
BRASILIA
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Os
estudantes Luís Carlos Moura Guimarães, 15 anos, Fernanda Carvalho e Luiz
Philippe François Cormier de Araújo, ambos de 16 anos, contam que as
experiências com tecnologias em sala de aula eram raras antes dos tablets. As
televisões disponíveis em todas elas eram pouco utilizadas. Visitas ao
laboratório de informática também.
Quando
foram avisados de que participariam da primeira da experiência da escola com os
tablets, em 2011, Fernanda e Luiz Philippe ficaram receosos. Eles temiam,
apesar da familiaridade com a tecnologia, não se adaptarem ao novo modelo de
aulas. “Em uma semana eu estava adaptado”, conta Luiz Philippe.
Para
Fernanda, a maior vantagem foi ter “esquecido” de que estava entrando em outra
fase, o ensino médio. “Deixei de me assustar com isso, estávamos envolvidos com
os tablets”, diz. Agora, para eles, não dá para imaginar a rotina sem os
equipamentos. Eles contam que o conteúdo é sempre atualizado, inclusive com
eventos do momento.
O
professor Eli lembra que essa é uma das grandes vantagens do material digital:
pode ser atualizado rapidamente e de maneira simples. “As correções são
importantes e também o aprimoramento. Essa agilidade de atualização é mais
condizente com o que vivemos na sociedade hoje. Estamos em avaliação, mas tem
sido muito positivo”, afirma.
“O
material no tablet facilitou a nossa vida. Havia coisas que pareciam muito
abstratas e se tornaram concretas”, afirma Luís Carlos. Processos biológicos em
células, por exemplo, que podem ser assistidos em vídeos no aplicativo da
escola. Eles elogiam as mudanças e garantem que, com a nova ferramenta, as
aulas ficaram mais dinâmicas e atrativas.
Adaptação
nas editoras
Forçadas
a mudar, as editoras de livros didáticos tradicionais estão adaptando seus
materiais. Nos sites da maioria das grandes produtoras de conteúdo didático, é
possível encontrar espaços destinados a quem adquiriu material impresso para
acessar conteúdo exclusivo. Jogos, animações e simulações são as ferramentas
mais comuns.
Fernando
Fonseca Junior, gerente de inovação e novas mídias da editora FTD, diz que o
momento é de transição. Por enquanto, ele acredita que não é possível oferecer
produtos totalmente dissociados do livro impresso. “Essa não é a realidade da
maioria das escolas, a cultura também precisa mudar. Oferecemos ambientes
digitais e ferramentas para ajudar o professor, simulados para o aluno fazer
por celular, que sejam adicionais”, conta.
Para ele,
esse é um caminho sem volta. “As pessoas já estão imersas em um mundo digital
nas suas vidas pessoais, não faz mais sentido isso estar fora da sala de aula.
O livro didático tem de ser relido. Nossa editora quer estar à frente desse
processo e entregar novas formas de organização de conteúdo que potencializem
processo de ensinar e aprender”, afirma.
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