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segunda-feira, 18 de agosto de 2014
Evasão escolar é maior nas favelas do Rio
Nas cinco maiores comunidades, número é de 10,3%. Só a
Rocinha tem 17,1% de crianças de 6 a 14 anos fora da escola
Rio - As favelas do Rio são os locais de maior concentração de crianças e
adolescentes que deixaram a escola, de acordo com levantamento da Casa
Fluminense publicado neste domingo pelo DIA , com base no
Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud 2013). A Rocinha, com
incríveis 17,1%, lidera a lista, seguida por Jacarezinho, com 14,5% (veja a
lista no infográfico). Enquanto a média da cidade é 3%, nas cinco maiores
comunidades ela vai a 10,3%.
“Se a estatística feita em Copacabana fosse desmembrada, separando morro e
asfalto, certamente o percentual dos sem-escola aumentaria muito nas favelas.
Não ficaria nos 2,6% atuais, média retirada do bairro inteiro”, argumenta o
economista Mauro Osório, coordenador do Observatório de Estudos sobre o Rio de
Janeiro e professor da Faculdade Nacional de Direito da UFRJ.
Números revelam maior evasão nas comunidades do
Rio
Foto: Arte: O Dia
Quando se soma os números da evasão em cada comunidade carente que
se tornou Região Administrativa, a realidade torna-se mais dura: 3.054 alunos
com idade de 6 a 14 anos abandonaram os bancos escolares em apenas cinco favelas
— Rocinha, Jacarezinho, Alemão, Maré e Cidade de Deus.
Os números ficam mais preocupantes a partir dos 10 anos, quando se
verifica aumento significativo de casos. Mas é a partir dos 12 anos que o
cenário torna-se desolador. A faixa de adolescentes com 14 anos que largaram os
estudos é mais do que o dobro em relação às demais idades.
Dos 5.421 adolescentes com 14 anos de idade que deixaram as salas,
3.865 estão na Zona Oeste. “Ou porque é extensa territorialmente, ou porque
cresceu muito, aquela região concentra os maiores bolsões de evasão. E foi onde
iniciamos nossas ações, em 2013”, diz Eliana Souza Silva, uma das fundadoras da
Casa Fluminense que atua no projeto Aluno Presente, principal arma da prefeitura
para cumprir seu compromisso de chegar a quase 100% dos alunos na escola até
2016.
Mais planejamento
De acordo com Mauro Osório, é importante também que se crie uma
cultura na máquina governamental para que os avanços alcançados sejam
permanentes.
“O governo deveria ter uma Secretaria de Planejamento com orçamento
territorializado. Por exemplo, saber quanto se gasta no Alemão e quanto seria
preciso para solucionar suas demandas. Isso permitiria enfrentar as
desigualdades territoriais, com transparência e num debate mais democrático.
Haveria uma melhor aplicação dos recursos”, aponta.
Segundo Osório, a boa educação começa na base. “É preciso uma
política para creches em horário integral. A capacidade de um indivíduo é
definida de zero a 6 anos, quando se incute nele culturas e autoestima, e ele
recebe boa alimentação. Quanto mais pobre é a família, menor sua chance de
apoiar a criança”, analisa.
No Rato Molhado,
a primeira vitória
Emile Vitória tem 9 anos. Mathias tem 12. Ambos moram no Engenho
Novo e até o mês passado estavam fora da escola. Graças ao trabalho das equipes
do projeto Aluno Presente, os dois voltaram a estudar.
O caso mais grave era o de Emile, que mora com os pais e três
irmãos pequenos no entorno da Favela Rato Molhado, na Rua Paim Pamplona. A
família é extremamente pobre.
Emile Vitória, de 9 anos, na porta de sua casa, no entorno da
favela do Rato Molhado: uma das crianças que engrossava as estatísticas e que
voltou às aulas
Foto: Daniel Castelo Branco / Agência O
Dia
Segundo a mãe da menina, Erislândia Oliveira Santos, de 32 anos,
Emile largou a escola em dezembro de 2013, depois de levar um beliscão da
professora.
“Nada a fazia ir para o colégio e ela não queria contar o que tinha
acontecido. Até o despertador Emile quebrou, para que eu não acordasse a tempo
de levá-la”, disse a mãe.
Em julho, o cenário mudou. “O pessoal do projeto chegou na minha
casa e arranjou vaga para minha filha em outra escola”, conta Erislândia, que
está grávida de gêmeos e vai dar à luz ainda este mês.
“Gosto de estudar. Agora, estou feliz na minha nova escola”, diz a menina,
que sonha ser professora. Mathias morava com a mãe na Zona Oeste e este ano
passou a residir com o pai, o auxiliar administrativo José Ricardo dos Reis
Santos, que também mora no Rato Molhado.
“Não consegui vaga para ele. Mas, com a ajuda da equipe que atua no projeto
Aluno Presente, Mathias está estudando novamente. E já estamos nos movimentando
para encontrar vaga para o meu filho de 6 anos”, relata José Ricardo.
Segundo Gisele Martins, gestora de campo do projeto, as equipes começaram a
trabalhar na favela em junho e localizaram cerca de 300 alunos fora da escola.
Na última verificação, há dez dias, mais de 100 já tinham retomado os
estudos. Reforço escolar também
ajuda
Além do projeto Aluno Presente, a Secretaria Municipal de Educação
desenvolveu um programa de reforço escolar, visando a garantir o interesse dos
alunos nos estudos e a consequente permanência na escola — a defasagem é um dos
fatores que causa a evasão. Segundo a assessoria da pasta, entre 2009 e 2013
quase 38 mil alunos foram realfabetizados e outros 60.500 tiveram corrigidas a
defasagem idade/série, entre 2010 e 2013.
O projeto Aluno Presente deu seu passo inicial pela 8ª Coordenadoria Regional
de Educação (CRE). “Identificamos que, das 552 visitas feitas em domicílios e
das 243 crianças encontradas, 237 já estavam na escola — o que reforça nossa
postura no combate à evasão escolar. Em buscas feitas a partir de contato
telefônico, encontramos 230 crianças , das quais 180 estavam na escola, 34 fora
e 16 tinham mudado de município. Todos os alunos encontrados fora das unidades
escolares foram reencaminhados aos estudos”, festeja a subsecretária de Ensino,
Jurema Holperin.
A Secretaria Municipal de Educação afirmou ainda que já está apurando a
denúncia da menina Emile Vitória, que teria abandonado a escola depois de levar
beliscão da professora, segundo relato de sua mãe.
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