Base aliada esvaziou quórum para impedir votação. Enio Bacci (PDT-RS) relatou ameaça de destituição caso não concordasse com a ação planejada
O governo usou todas as armas para barrar os trabalhos da CPI da Petrobras
nesta terça-feira (11). Inicialmente, a base aliada esvaziou a primeira
parte da reunião, na qual seriam votados os requerimentos de convocação
de Sérgio Machado, presidente licenciado da Transpetro, e de Renato
Duque, ex-diretor de Serviços da estatal. Depois, os parlamentares
assistiram ao depoimento de uma testemunha que nada tinha a dizer e que
havia sido convocada a pedido do PT: o gerente de contratos da empresa,
Edmar Figueiredo. Por fim, quando o quórum estava completo e a oposição
se preparava para a abertura de uma reunião extraordinária na qual
seriam votados requerimentos de convocação de petistas, a Ordem do Dia
do Senado teve início surpreendentemente cedo e o presidente da CPI,
senador Vital do Rêgo (PMDB-PB), encerrou os trabalhos de forma incomum
– a oposição pedia que a sessão fosse apenas suspensa, o que tornaria
possível a votação dos requerimentos ainda nesta terça-feira.
A articulação governista ficou clara
desde o início dos trabalhos. A programação era a de que a reunião seria
aberta com a votação de requerimentos, e que depois os parlamentares
ouviriam Edmar Figueiredo. Mas os aliados esvaziaram o quórum para
impedir as deliberações. Não havia parlamentares do PT – à exceção de
Afonso Florence (PT-BA), encarregado de fazer as perguntas ao depoente
do dia por conta da ausência do relator Marco Maia (PT-RS). Por causa do
baixo quórum, o presidente da CPI deu início à oitiva de Figueiredo.
A oposição criticou a manobra, e o
deputado Enio Bacci (PDT-RS) fez uma revelação: ele contou ter ouvido
“sete ou oito” pedidos de integrantes de seu partido e de outros
parlamentares governistas para que não comparecesse à CPI – sob a ameaça
de que seria destituído de seu lugar na comissão. “É revoltante a forma
como isso ocorreu. Em vinte anos, é a primeira vez em que houve uma
pressão tão escancarada para que eu não comparecesse a uma CPI”, disse
ele.
O deputado não quis dar os nomes dos
seus interlocutores: “Quem fez essa pressão não fez por vontade própria,
mas vez pressionado por forças maiores, que são as forças do governo”, afirmou.
Depoimento vazio
O depoimento de Edmar Figueiredo não
trouxe qualquer novidade. Ele reconheceu que está apenas na quarta linha
decisória da estatal e afirmou que não poderia responder a qualquer
pergunta sobre as denúncias envolvendo a SBM Offshore, que é investigada por pagar propina a funcionários da Petrobras.
“O nobre depoente não consta no
organograma da Petrobras. É óbvio que não sabe de nada e veio aqui
cumprir tabela”, disse o deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS). Após a morosa
e improdutiva sequência de perguntas de Afonso Florence, a oposição
anunciou que abriria mão de indagar Edmar Figueiredo e, já que o quórum
havia sido formado, cobrou a abertura de uma sessão extraordinária – o
que o regimento permite. O deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP) pretendia
que a CPI votasse a convocação do tesoureiro do PT, João Vaccari Neto,
da senadora Gleisi Hoffmann e do ministro das Comunicações, Paulo
Bernardo. Os três são citados pelo doleiro Alberto Youssef como
beneficiários do esquema de desvios na estatal.
Encerramento
A possibilidade de uma sessão
extraordinária passou a ficar distante quando o plenário do Senado deu
início à ordem do dia. O líder do governo, Humberto Costa (PT-PE),
chegou à CPI e informou a Vital que a chamada para votação em plenário
havia se iniciado. O peemedebista encerrou os trabalhos da CPI sem ouvir
os oposicionistas, que pediam uma simples suspensão da sessão. Isso
permitiria a retomada da reunião ainda nesta terça-feira.
Vital, que é cotado para um cargo no
Tribunal de Contas da União, deixou a sala rapidamente e apresentou uma
explicação confusa quando interpelado pela imprensa: “A mim não podem
imaginar que está ou não com manobra. Eu tenho é que conduzir os
trabalhos e eu conduzo com a extrema rigidez do regimento interno”. O
peemedebista deixou o local quando três deputados oposicionistas se
aproximaram para protestar.
“Não pode fugir, não, tem que responder
sobre esta farsa montada pelo senador Vital do Rêgo e pela base do
governo”, dizia Rubens Bueno (PPS-PR). “Ele lamentavelmente abriu mão de
uma biografia positiva para servir ao governo numa manobra menor”,
afirmou Lorenzoni.
A próxima reunião da CPI será na
terça-feira. A oposição promete brigar para aprovar novas convocações
apesar do prazo exíguo. A comissão vai funcionar até o dia 22 de
dezembro. Com a troca na legislatura, será preciso abrir outra CPI para
continuar as investigações a partir de 2015.
Fonte: Veja
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