Estrutura precária leva candidatos ao limite do estresse. Como não há médicos nos postos, socorro é feito pelos examinadores
Na semana passada, a reportagem do DIA
foi até o local, que também atende candidatos de Nova Iguaçu e São João
de Meriti, e constatou que cabos de vassouras fincados em garrafas PET
cheias de areia serviam como balizas, e duas pedras substituíam a placa
‘Pare’ na sinalização do cruzamento, cujo descumprimento gera reprovação
imediata.

Às 12h45, candidatos marcados para às 11h disputavam espaço
para sentar em poucas pedras com os alunos do início da tarde, que
começavam a chegar. Naquele posto do Detran, um único banheiro feminino e
dois masculinos eram usados por todos. Segundo o instrutor Josué
Gouveia, de 46, há dias em que 150 pessoas circulam pelo local. “Às
vezes recorremos ao banheiro do supermercado, porque os do posto ficam
precários”, conta.
Na fila à espera da prova, candidatos e instrutores
também tinham que driblar o calor intenso, sem marquise ou toldo. A
instrutora Cláudia de Araújo, de 35, protegia-se com o jaleco por cima
da cabeça. “É um desrespeito com alunos e instrutores. Não tem lugar
apropriado para esperarmos. Isso prejudica o aluno.”
Ela estava com a candidata Débora Gonçalves, de
27, que, em outra ocasião, fora reprovada no local depois de ter
encostado numa baliza. Ela precisava passar no exame pois sonha em fazer
concurso para ingressar nos quadros da polícia. “Em uma situação dessa,
tudo atrapalha, ainda mais em tais condições, totalmente inadequadas
para uma prova.”
Lixo acumulado: condições insalubres para os futuros motoristas, que não contam com instalações adequadas
Foto: Anetran
No último dia 9, Andrea Cristina de Oliveira,
de 37 anos, passou mal fazendo o exame no local. De acordo com o
instrutor que a acompanhava, Djaílson Nascimento, como não havia médicos
nem ambulâncias no local do exame, ele mesmo prestou socorro. “Tentei a
respiração boca a boca, mas ela foi ficando roxa e morreu. Eu botei o
corpo no carro da auto-escola e, a caminho do hospital, encontramos a
ambulância, 20 minutos depois.”
Em nota oficial, o Detran afirmou que Andrea Cristina de
Oliveira “não sofreu óbito nas dependências da área de exame”. “Ela
passou mal, foi socorrida por uma ambulância e encaminhada ao hospital”,
diz o texto. Não há referência na nota à falta de médicos no local do
exame.Na contramão do código de trânsito
O presidente da Associação Nacional de Examinadores dos Detrans (Anetran), Jorge Filho, disse que o caso de Andrea Cristina pode ter sido o terceiro óbito neste ano em áreas de exame de habilitação no Estado do Rio. Mesmo assim, segundo ele, nunca houve ambulância ou médicos nessas áreas.
Os exames chegam a ser realizados à noite, assim como o preenchimento das fichas dos candidatos
Foto: Anetran
“É um evento onde se aglomeram pessoas em alto
nível de estresse, que sofrem com a falta de infraestrutura básica, como
cadeiras e tendas para a proteção, além de água e segurança”.
Segundo Jorge Filho, o próprio Detran infringe o Código de Trânsito Brasileiro, que fala da segurança no trânsito e proteção à vida e ao meio ambiente.
Segundo Jorge Filho, o próprio Detran infringe o Código de Trânsito Brasileiro, que fala da segurança no trânsito e proteção à vida e ao meio ambiente.
“Nós, examinadores, estamos cansados de
socorrer candidatos acidentados ou que passam mal, vítimas de estresse
ou fadiga”, garantiu ele. A realização de exames noturnos, sem
iluminação apropriada, também é alvo de críticas. Em fotos, é possível
ver a prova sendo iluminada por faróis de carros e examinadores usando
telefones celulares para escrever nas fichas de alunos.
De acordo com Jorge, só neste ano, dez exames
já foram realizados à noite. “Isto prejudica o exame, pois as faltas
relacionadas aos pedais são impossíveis de serem marcadas, assim como o
candidato tem dificuldade de enxergar as balizas e marcações”, disse.
A situação caótica já foi motivo de inquérito
civil instaurado no Ministério Público, que foi arquivado depois de a
promotora Glaucia Maria Santana receber a defesa do Detran argumentando
que os exames não eram realizados nessas condições.
Receita é alta, mas melhorias ainda são uma promessa
Questionado sobre o valor investido em melhorias nos exames para a carteira de habilitação, o Detran não deu números, mas alegou que foram aplicados recursos em novos equipamentos, no controle das autoescolas e no monitoramento por áudio e vídeo das provas práticas de direção, através de câmeras instaladas nos carros das autoescolas e nas áreas de exame de baliza.
Fonte: O DIA.
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