Vara
suspendeu análise de pedido de trabalho, mas Lewandowski liberou. Para
presidente do STF, houve ‘atropelamento’ porque PGR não foi ouvida
O presidente do Supremo Tribunal Federal
(STF), Joaquim Barbosa, revogou uma decisão de janeiro do ministro
Ricardo Lewandowski que beneficiou o ex-ministro da Casa Civil José
Dirceu, condenado pelo mensalão e preso na penitenciária da Papuda desde
novembro do ano passado.
Em 29 de janeiro, quando ocupava a
presidência interina do STF, Lewandowski determinou que a Vara de
Execuções Penais do Distrito Federal analisasse o pedido de trabalho
externo feito por Dirceu, que estava suspenso pela suspeita de que ele
teria falado ao celular de dentro da prisão com um secretário estadual
da Bahia.
Barbosa derrubou a decisão de
Lewandowski que havia dado andamento ao pedido, alegando que houve
“atropelamento” do devido processo legal pelo fato de a Procuradoria
Geral da República não ter sido ouvida. O presidente do Supremo disse
que Lewandowski “acolheu sumariamente” o pedido da defesa de Dirceu.
“A decisão que determinou o exame
imediato do pedido de trabalho externo do reeducando José Dirceu de
Oliveira e Silva importou um atropelamento do devido processo legal,
pois deixou de ouvir, previamente, o MPF e o juízo das execuções penais
cuja decisão foi sumariamente revogada. Considerada a inexistência de
risco de perecimento do direito, não se justifica, processualmente, a
concessão do pleito ‘inaudita altera pars’ (sem ouvir a outra parte)”,
diz Barbosa.
Em nota, o advogado de José Dirceu, José
Luis Oliveira Lima, disse que irá recorrer da decisão de Barbosa, para
que o plenário do STF decida sobre o assunto. Ele também criticou a
paralisação do pedido de trabalho, alegando que a situação de Dirceu “é
de urgência”.
“A análise de seu pedido para trabalhar
tem sido sucessivamente adiada, o que o mantem em regime fechado, em
contrariedade com a sentença proferida pelo próprio STF. É direito de
José Dirceu trabalhar fora da prisão, como tem ocorrido com os demais
condenados na ação penal 470. Juntamos no processo da execução o
resultado da investigação disciplinar que concluiu que nenhuma infração
foi pratica pelo ex-ministro José Dirceu”, diz o advogado.
A defesa nega que Dirceu tenha falado ao
celular de dentro da cadeia e diz que investigações do sistema
penitenciário do Distrito Federal já teriam concluído que o episódio não
ocorreu.
Lewandowski, que é vice-presidente do
tribunal, ocupou interinamente a presidência durante parte das férias de
Barbosa, entre 7 de janeiro e 2 de fevereiro, e ficou responsável por
decisões urgentes. A ministra Cármen Lúcia assumiu o comando do tribunal
nos primeiros dias de férias de Barbosa, mas não proferiu nenhuma
decisão polêmica.
Barbosa e Lewandowski já protagonizaram
vários embates no plenário do Supremo. Durante o julgamento do processo
do mensalão, no ano passado, houve momentos de tensão entre os dois. O
presidente do STF chegou a acusar o colega de “fazer chicana”, o que no
jargão jurídico significa uma manobra para prejudicar o andamento da
ação.
Joaquim Barbosa reformou outras duas
decisões tomadas por Lewandowski no recesso, que liberavam o reajuste do
Imposto Territorial e Predial Urbano (IPTU) em Caçador (SC) e em São
José do Rio Preto (SP). Nesses casos, porém, Barbosa foi provocado por
meio de recursos apresentados por associações das cidades.
No caso de Dirceu, o presidente do Supremo, sem ter recebido
recurso que questionou a decisão, suspendeu os efeitos da decisão de Lewandowski.
“Suspendo os efeitos da revogação [da
análise dos benefícios] e determino que seja dada vista ao
procurador-geral da República, para que indique as providências que
entender cabíveis para o esclarecimento do ocorrido, bem como para que
se manifeste sobre o pedido de trabalho externo formulado pelo apenado.”
Barbosa determinou ainda que a VEP seja
informada e suspenda a análise dos benefícios a José Dirceu. Segundo a
determinação judicial que Lewandowski revogou, a análise dos benefícios
não seria feita enquanto durasse as investigações sobre o suposto uso do
celular.
Pedido ao Supremo
Em petição protocolada na Suprema Corte
durante o recesso, quando Joaquim Barbosa estava de férias, a defesa de
Dirceu argumentou que, embora a Vara de Execuções Penais seja
responsável pela análise dos pedidos de trabalho, cabe ao STF referendar
ou revogar as decisões tomadas.
“Não se pode permitir adoção de decisão
cautelar que prejudique os direitos do cidadão com base em notas de
jornal cuja veracidade foram repudiadas pelas investigações da
administração pública”, argumentou a defesa.
A defesa alegou que a revogação da
suspensão era urgente porque o réu está preso, é idoso e tem o direito
de ter seus pedidos analisados com prioridade.
Lewandowski concordou: “Setores
competentes do sistema prisional concluíram, à unanimidade, após
procederem às devidas investigações, que os fatos imputados ao
sentenciado não existiram.”
Dirceu cumpre pena de 7 anos e 11 meses
pela condenação por corrupção ativa. Como está em regime semiaberto, o
ex-ministro pode pedir para trabalhar fora da cadeia durante o dia.
Atualmente, Dirceu aguarda análise, pela Justiça, de proposta para trabalhar no
escritório do advogado José Gerardo Grossi.
Entre as funções que deverá exercer,
conforme a proposta de Grossi, está a de “cuidar” da biblioteca do
escritório, realizar “eventual pesquisa de jurisprudência” e colaborar
“na parte administrativa”. O salário oferecido é de R$ 2,1 mil.
Anteriormente, Dirceu havia desistido de trabalhar como gerente de um hotel
em Brasília com salário de R$ 20 mil.
Fonte: G1
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