Em entrevista exclusiva, presidente da Petrobras conta que comitê reunia grupo de proprietários da refinaria nos EUA
Aparentando calma, mas, ao mesmo tempo,
indignada, a presidente da Petrobras, Graça Foster conversou com ‘O
Globo’ na sede da estatal, no Centro do Rio. Em meio ao furacão de
denúncias envolvendo a compra da refinaria de Pasadena, nos Estados
Unidos, e da prisão do ex-diretor Paulo Roberto Costa, a executiva
revelou que abriu comissão para apurar a operação no Texas.
Qual foi sua reação quando a
presidente Dilma disse que a compra da refinaria de Pasadena, em 2006,
foi baseada em relatório com falhas?
Eu entendi que a presidenta e o conselho
sentiram falta de mais informações. Esse é o ponto. O resumo executivo,
que é um resumo para o executivo, ao ser elaborado, a gente deve
colocar todos os pontos que são pontos de atenção do processo. E foi
sentido falta de mais informações. Não fiquei chateada e não fiquei
surpresa. Compreendo que, muitas vezes, a gente demanda mais
informações. Foi dessa forma que compreendi a questão. No resumo
executivo, não consta a cláusula Marlim, que trata da rentabilidade, e
não consta o put option, que trata da saída da outra parte da companhia.
Esses resumos executivos ficam anexados à ata. São documentos
confidenciais.
E isso seria normal?
Aí, depende do diretor que está
elaborando o resumo e de quão relevante é. A cláusula Marlim é
relevante, mas não teve a revamp (modernização) da refinaria. E, por
isso, não teve efeito. A put option é absolutamente comum, mas distinta
para cada ativo. Ela não é igual. É específica. E isso não fez parte do
resumo executivo.
Como é feito hoje?
Da mesma forma que antes. É impossível
para a presidente da companhia, ao receber o resumo executivo que se
prepara para encaminhar ao CA (conselho de administração), conseguir
antever todos os elementos a estarem no resumo executivo. Cabe ao
diretor da área tomar posição e colocar ali quais são os pontos
relevantes para que o conselho possa se posicionar com conforto e que
traga segurança para todos.
O que decidiu sobre Pasadena?
A
Polícia Federal investiga indícios de que o ex-diretor da Petrobras
Paulo Roberto da Costa recebeu propina de doleiro para favorecer
empresas em contratos para construção da Refinaria de Abreu e Lima, em
Pernambuco. Segundo a investigação, os pagamentos foram feitos entre
julho de 2011 e julho de 2012
Segunda-feira (24), tomamos a decisão de
abrir uma comissão de apuração interna na Petrobras sobre Pasadena. Fui
eu que abri. Isso é extremamente importante para esse caso. Temos até
45 dias para poder nos manifestar em uma série de processos que já
estávamos em avaliação de forma administrativa. Eu já vinha tratando
disso, pois sou a diretora da área internacional e fiz várias mudanças
na busca de melhorias. Essa comissão não foi aberta para saber se a
cláusula devia ou não estar no resumo executivo. Entendo que a demanda
do conselho de administração é correta e justa e precisa ter
informações. Não é preciso fazer uma comissão de 45 dias para se chegar a
conclusão sobre a importância de tê-las no resumo executivo. É muito
importante que se saiba que a Petrobras tem comando. A Petrobras é uma
empresa de 85 mil funcionários e tem uma presidente. Sou eu. Eu respondo
pela Petrobras. Temos uma diretoria colegiada que trabalha pela busca
da melhoria. E o que precisa ser investigado é investigado nessa
empresa. Esse é o ponto fundamental. Aqui, tem normas, procedimentos e
ela investiga.
Qual foi a gota d’água para essa decisão?
Foi um somatório de fatos. As últimas
discussões sobre a relação eventual do diretor Paulo Roberto (Costa,
ex-diretor) com Pasadena. Eu descobri ontem (segunda-feira), não sabia
que existia um Comitê de proprietários de Pasadena no qual o Paulo
Roberto era representante da Petrobras. Esse comitê era acima do board
(conselho de administração). Depois que entramos em processo arbitral
esse comitê deixou de existir.
Qual era a função desse comitê de proprietários?
Não sei ainda e esse é um ponto que a
comissão está procurando, quais eram os estatutos, quais eram as
atribuições, qual era o poder e onde estão as datas. Eu não sei nada.
Como a senhora reagiu à descoberta da existência desse Comitê de proprietários? Isso leva a
alguma suspeita de irregularidade?
Fui surpreendida com essa informação. Eu
tenho sim que buscar a informação. Nada quer dizer que possa ter havido
qualquer ato falho, negativo, prejudicial à companhia. Pelo fato de ter
havido esse comitê e o Paulo (Roberto Costa) estar nesse comitê não
significa que esse comitê não tenha executado as melhores práticas.
Leia também: Senado quer esclarecimentos de Lobão e Graça Foster
Todas as informações da companhia são registradas?
Os processos da companhia são escritos e
temos vindo num processo de melhoria sistemática. Eu tenho na Área
Internacional, junto à área de Novos Negócios, um procedimento de
rastreabilidade de documentação. São as lições aprendidas, é preciso
tropeçar para poder cuidar. Na grande maioria, na totalidade da
companhia.
Mas as cláusulas precisavam estar no resumo executivo?
Uma coisa importante é a segurança que o
diretor e o presidente passa em relação àquelas pautas. No caso de
Pasadena, houve outras questões a posteriori. Então, quando você volta e
procura a documentação do resumo e não esta ali, isso causa o
desconforto. Eu não estava nessa reunião de diretoria. A forma que nós
passamos para o Conselho dá respaldo. É impossível detalhar no resumo
dezenas de pontos. Às vezes centenas de observações ficariam algo não
operacional.
O caso Pasadena já vinha sendo analisado de forma administrativa. O que mudou agora?
Quando assumi a diretoria internacional
de fato, passei a tratar os procedimentos internos. Trouxemos o máximo
de discussão para minha mesa e dos gerentes executivos. Mudamos
gerências, buscamos informações em relação a Pasadena e trabalhamos o
desinvestimento. Com os fatos recentes apresentados na imprensa, eu não
posso conduzir mais administrativamente como diretora e com os gerentes
executivos a questão. Foi preciso, à luz dos fatos recentes, que
buscássemos a comissão para que apurasse internamente todos os pontos,
documentais inclusive.
Em 2008, o conselho não recomendou comprar os 50% restantes e o caso foi para arbitragem…
O conselho remeteu o assunto para a
diretoria executiva, que tomou a decisão de não aprovar e entrar na
arbitragem. E entendo que foi uma decisão correta entrar na arbitragem.
Eu tinha entrado na diretoria em setembro e essa decisão foi em outubro
de 2008. Foi na sequência.
Mas Pasadena foi um erro?
Eu preciso da comissão de avaliação.
Quando você faz uma fotografia da relação que se buscou com a Astra de
parceria numa refinaria no Golfo e o que tenho de informação antes de
fechar a comissão, espero poder continuar afirmando que foi um negócio
potencialmente adequado para a companhia. Não tenho bola de cristal
para saber como será a economia. Cláusulas contratuais precisam ser
avaliadas sim e explicitadas em algum nível ao conselho. Quando se trata
da aquisição de 50%, pois foi uma parceria entre Petrobras e Astra, com
valores da época e projeções da margem da época, foi um negócio que se
mostrava potencialmente atraente. Com a mudança da economia e das
aplicações das fórmulas de put option, da negociação, dos valores que se
apresentaram e com a queda absurda de margem, não seria um projeto que a
gente repetiria.
Como viu a prisão de Paulo
Roberto Costa, investigado por envolvimento com lavagem de dinheiro. E
as suspeitas de superfaturamento em Abreu e Lima?
Tudo é surpreendente. E nos deixa muito
reativos no sentido de que somos uma empresa de 85 mil empregados. De
uma empresa que tem uma dedicação inquestionável às causas da companhia.
E estamos em pé e trabalhando dedicadamente independentemente de
questões que nos entristecem e que nos deixam tão apreensivos. Num caso
desse que entendo que vai ser julgado, e não sei qual é a situação do
ex-diretor, um caso desse não representa a Petrobras, definitivamente.
Então, a gente espera como vai ser o desdobramento. O ex-diretor, quando
julgado, não representa a Petrobras. Com certeza, me surpreendi. E
tenho dito à companhia que estamos em pé trabalhando fortemente num ano
de prosperidade da Petrobras, pois o ano de 2014 é o ano de
prosperidade. Trabalhamos tanto para o aumento de produção, para que a
Rnest (Refinaria Abreu e Lima) tenha os custos controlados. Há dois anos
que a gente segura a Rnest para controlar os custos. No Comperj,
fizemos dezenas de simplificações para que coloque o Comperj em pé. É
algo que emociona.
Terá auditoria em Abreu e Lima?
Não fizemos auditoria na Rnest. Do que
acompanhamos, temos respondido aos órgãos de controle. E não há
materialidade hoje que justifique auditoria na Rnest. Há uma semana
vínhamos conduzindo Pasadena administrativamente. E decidimos ontem
criar uma comissão. Tenho que ter absoluta segurança no que falo. E,
quando eu não tenho a segurança do que estou falando, eu não posso mais
usar os processos que vinha usando.
Essas questões afetam o corpo técnico da companhia?
Há que se respeitar o corpo técnico da
Petrobras. Tem que apurar tudo que é pratica que ocasiona
questionamentos. É uma empresa que busca a verdade. E é isso que vemos
nessa discussão toda nesse momento. E estamos disciplinadamente
respondendo a todos e a tudo. Estamos falando de processos que estão
sendo investigados. Quando a gente vê a presidenta Dilma e essa questão
em relação a Pasadena, é um processo em que se fez o questionamento de
uma documentação. Mas quantos processos adequados a companhia tem?
Milhares de processos. Por isso há que se respeitar a Petrobras, há que
se reconhecer a força da corporação e a sua organização.
Até o momento nada indica irregularidades em Pasadena?
Nada. Mas eu não posso não saber de alguma coisa nesse momento em relação a Pasadena. Eu não aceito, e daí vem minha indignação.
A senhora está indignada por descobrir desconhecer várias coisas no caso de Pasadena?
Eu sou a presidente da companhia em cima
de um caso que é delicado. Não aceito descobrir que estou falando um
número e o número correto é outro (valor pago nos 50% iniciais), e nem
aceito tratar um assunto em que me venha um comitê, um board de
representantes das partes (Petrobras e Astra) que eu não saiba. E eu não
aceito isso de jeito nenhum. E não fica pedra sobre pedra, não fica.
Mas não fica, não fica. Pode ficar incomodado.
A senhora acha que tantas denúncias têm algum fundo político?
Eu me abstenho disso. Não tenho
elementos para dialogar sobre esse assunto. Leio sobre isso, mas eu não
posso entrar num mundo que não é meu.
O momento é delicado?
Reconheço que é um momento delicado
politicamente. Mas a Petrobras tem que se abstrair disso, ela precisa
continuar sua luta diária para produzir mais óleo, mais derivados, para
motivar a equipe, para viver no mundo real, para não falar o que não vai
fazer.
Fonte: O Globo
Nenhum comentário:
Postar um comentário