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segunda-feira, 17 de março de 2014
Tráfico transforma estação de trem em ponto de drogas
Bando vende cocaína e se comunica através de rádio em plataforma, em Santa Cruz
Christina Nascimento
Rio - No chão, dezenas de cápsulas de cocaína
abertas. O uso da droga é livre, acontece durante todo o dia e está
acessível para quem estiver disposto a gastar R$ 5 ou R$ 10. Este é o
valor que garotos gritam para atrair a clientela. A entrega é ali mesmo,
no melhor estilo ‘fast-food’. Pagou, levou. Ao contrário do que muitas
pessoas imaginam, o ponto de drogas não está numa favela. Funciona em
uma concessão pública, a plataforma de trem da Estação Tancredo Neves,
em Santa Cruz. E o pior: há pelo menos oito anos, o tráfico atua no
local, onde milhares de passageiros passam toda semana.
Embarcar e descer na ‘Estação do Pó’, como o
local é chamado por passageiros, é uma aventura que exige boa dose de
coragem. A equipe do DIA
esteve lá dois dias, em semanas diferentes, sempre por volta do
meio-dia. Na primeira vez, havia seguranças da SuperVia perto da
bilheteria. E mesmo assim foi possível assistir à compra de droga e a
uma espécie de crise convulsiva de um usuário.
Na
Estação Tancredo Neves funciona uma boca de fumo do tráfico da Favela
de Antares: durante dois dias, O DIA flagrou a movimentação de bandidos
na ‘Estação do Pó’
Foto: Alexandre Vieira / Agência O Dia
Na outra vez, nenhum funcionário foi
visto. O som alto de um ‘proibidão’ — funk que faz apologia a facções
criminosas — tocava no celular de um garoto, dando o tom do clima de
animosidade do local. Sentado em um banco de passageiro, à espera de um
consumidor, o jovem integrava o grupo de cerca de 20 pessoas que
lotearam a estação da concessionária SuperVia a serviço do tráfico.
Lá, o cenário poderia se limitar a usuários de
crack, que se tornaram uma ‘epidemia’ na cidade. Mas não. Na plataforma,
onde moradores e trabalhadores esperam a composição do ramal Santa
Cruz, são traficantes com radiotransmissores que ditam as regras, sem
nenhuma preocupação de esconder o lucrativo negócio que os sustenta.
Passageiros que vão pegar o trem são abordados na rampa de acesso à plataforma
Foto: Alexandre Vieira / Agência O Dia
As cápsulas abertas dão uma ideia do
número de viciados que circula no local. E não são poucos. Na
quinta-feira, pós-Carnaval, eram tantas que formavam um ‘tapete’ na
rampa da passarela de acesso dos passageiros. De plástico transparente,
elas vêm com a quantidade de cocaína suficiente para serem aspiradas de
uma única vez em cada narina.
“É para facilitar o consumo. Cheira e
pronto”, explicou uma passageira, que é obrigada a descer na estação
todos os dias por causa do trabalho. “Isso aqui é assustador”, concluiu.
A ‘boca’ é abastecida pelo tráfico da
Favela de Antares, que faz divisa com a Estação Tancredo Neves. Por
isso, a droga chega a qualquer momento, principalmente por motos que
circulam livremente na passarela da SuperVia. O domínio do grupo
criminoso é tão ostensivo que ele fizeram um buraco no muro que dá
acesso à plataforma.
Cápsulas semelhantes às encontradas na estação ferroviária
Foto: Alexandre Vieira / Agência O Dia
É por esta entrada improvisada que
muitas pessoas passam para embarcar sem pagar passagem. Mas o objetivo
dos traficantes é “empresarial”: permitir que usuários comprem droga na
plataforma sem ter que arcar com o custo da tarifa de trem toda vez
forem à plataforma.
SuperVia espera ação da polícia
A SuperVia se recusou a responder uma série de questionamentos feitos pelo DIA
. Nem mesmo a quantidade de público que circula na estação foi informada
pela concessionária. Eles também não quiseram confirmar a informação de
que a bilheteria local tem prejuízo, porque os traficantes liberam a
entrada de passageiros por um buraco na parede que fica paralela à
estação.
Outro ponto que foi levantado trata
da atuação da segurança do local. A empresa não explicou quais foram as
medidas tomadas nos últimos anos para impedir a atuação do tráfico
naquela plataforma. Em nota, a concessionária que administra o sistema
de trens se limitou a afirmar que mantém alinhamento com a Secretaria de
Segurança do Rio de Janeiro e que ‘reforça a confiança na atuação do
poder público para garantir a segurança da população’.
Disputa afeta posto de saúde
A situação caótica na Estação
Tancredo Neves deve piorar ainda mais. O sinal de que isso pode
acontecer já foi dado. Na semana passada, traficantes da Favela da
Metral, na Vila Kennedy, que foi ocupada por policiais, fugiram para a
Favela de Antares. A chegada dos criminosos na comunidade provocou
intenso tiroteio. E a disputa pelos pontos de drogas vai incluir,
certamente, a ‘boca’ que fica na plataforma da SuperVia.
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