Homens não identificados com uniformes militares bloqueiam uma base da guarda de fronteira ucraniana em Balaclava
A chegada de milhares de militares
russos à Crimeia e a interpretação do novo governo ucraniano,
pró-Ocidente, de que a ação de Moscou representa uma declaração de
guerra, reforçaram os temores de que o Leste Europeu passe a ser palco
de um conflito armado. Domingo (02), enquanto Kiev convocava seus
reservistas, as autoridades crimeanas, pró-Rússia, informavam que a
maioria das unidades militares ucranianas na península aderiram ao
governo local, e o chefe da Marinha ucraniana, Denis Berezovsky —
nomeado para o cargo dois dias antes — jurava lealdade à Crimeia. À
noite, um funcionário do governo americano, sob condição de anonimato,
confirmou à imprensa que a Rússia detinha “controle operacional” da
Crimeia e já trabalhava em modo de ocupação.
A situação na Crimeia aparentava estar
mais calma ontem frente ao dia anterior, quando o Parlamento russo
autorizou o envio de militares à Ucrânia para proteger cidadãos russos —
justificativa similar à usada na invasão da ex-república soviética da
Geórgia, em 2008. As tropas da Rússia passaram o dia pressionando
militares ucranianos na Crimeia a abandonarem as armas, em alguns casos
com sucesso. Nas recusas, entretanto, não foram registrados confrontos
armados.
No vilarejo de Privolnoye, centenas de
soldados mascarados e sem bandeiras no uniforme cercaram a base
ucraniana local, usando veículos com placas da Rússia. Do lado de
dentro, havia pouco mais de 20 soldados da Ucrânia. Após cerca de 15
minutos de conversa com um militar russo, o coronel ucraniano Sergei
Starojenko, comandante da base, garantiu que não haveria conflito. Mas o
contingente russo não foi embora, e a noite caiu ao som dos
manifestantes pró-Rússia que pediam a entrega da base e com militares de
ambos os lados aguardando ordens do que fazer em seguida.
Para observadores ocidentais,
principalmente, a tomada da Crimeia pela Rússia pode servir de ato
inicial para uma campanha pelo Leste da Ucrânia, onde a maioria da
população fala russo e se identifica com o país vizinho. Moscou tem
feito exercícios de guerra com 150 mil militares na região de fronteira
com a Ucrânia e, apesar de Kiev ter convocado reservistas — todos os
homens com menos de 40 anos — as Forças Armadas ucranianas não são páreo
para o poderio bélico russo. A Ucrânia inclusive pediu ajuda à
Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) caso haja um ataque
russo, e especificamente dos EUA e do Reino Unido, países signatários de
um acordo com a Rússia para a garantia da segurança da ex-república
soviética. A Otan, porém, limitou-se a criticar a pressão russa.
A Ucrânia tem representação na Otan, mas
não é integrante efetiva da organização. Isso significa que o país não
pode invocar a mais poderosa ferramenta do grupo: a de que um ataque
contra um membro é igual a um ataque contra todos. No que aparece como
uma possível manobra para contornar as limitações da Otan, os EUA querem
criar, segundo uma fonte do governo, uma missão da Organização para a
Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE) — entidade da qual EUA, Rússia
e Ucrânia são membros — para substituir as forças russas na Crimeia
caso Moscou seja persuadida a ordenar a retirada de seus homens. Até
agora, o presidente russo, Vladimir Putin, limitou-se a aceitar uma
“missão de averiguação” sobre a situação na Ucrânia possivelmente
liderada pela OSCE, informou ontem um porta-voz do governo da Alemanha.
Fonte: O Globo
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