Walderez de Barros engrossa o coro dos artistas que reclamam da falta de educação dos espectadores das peças atualmente
Walderez de Barros (ao centro) com o elenco de 'A Casa de Bernarda Alba'
No último domingo (10), Marco Nanini
precisou interromper a apresentação da peça "A Arte e a Maneira de
Abordar seu Chefe para Pedir um Aumento" por conta de um incidente na
plateia. O motivo exato foi explicado em nota oficial pelo Sesc,
onde acontecia a apresentação. "Após aproximadamente 20 minutos de peça,
uma espectadora ausentou-se da sala de espetáculos com intuito de
retornar. Neste ínterim, outro espectador ocupou, indevidamente, seu
lugar. Ao retornar à sala, a senhora exigiu que o mesmo se levantasse."
A
discussão entre os dois atrapalhou tanto o ator, que Nanini optou por
parar a apresentação até que eles se resolvessem. A pausa foi só mais
uma atitude que integra a lista de reclamações de artistas do palco,
como a do ator Cássio Scapin, que em entrevista ao iG afirmou: "A plateia de hoje está muito mal-educada."Walderez de Barros, que está em cartaz em São Paulo com o espetáculo "A Casa de Bernarda Alba", engrossa o coro. "Algumas pessoas ainda não perceberam que quem está no palco são seres humanos. Não é TV, nem cinema, são seres humanos. E nós percebemos o que está acontecendo na plateia”, afirma a atriz.
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Antônio Fagundes na peça 'Sete Minutos'
Queixas
Antônio Fagundes
mostra um pouco do incômodo do ator no espetáculo "Sete Segundos",
escrito por ele em 2002, diante de algumas atitudes da plateia. A
postura na poltrona, o ato de comer alimentos em embalagens barulhentas e
a tosse constante foram alguns dos desabafos do personagem.
Onze
anos depois, o uso do celular parece ter superado todos esses tópicos e
virou o item mais incômodo da lista pelo fácil acesso às redes sociais
atualmente. Para Célia Forte, sócia da Morente Forte
Comunicações, empresa especializada em assessoria de imprensa e produção
na área cultural, a luz do aparelho incomoda muito mais do que o toque
do telefone de um espectador desavisado ou que possa ter esquecido de
desligá-lo. "Essa luz é uma falta de respeito ao próximo. Qual a
importância desse ser, que a humanidade não consiga ficar uma hora sem
contato com ele? Se tenho um parente que está mal, não vou ao teatro ou
cinema. Mas a quantidade de gente que entra em teatro e que fica olhando
celular, torpedo, Facebook, todas essas bobagens... Acho que o teatro e
o cinema não precisam desse tipo de público", desabafa Célia, que
considera a atitude um desrespeito, não só com o ator, mas também com o
público, que paga caro para assistir aos espetáculos. "Se você vai,
porque não usufrui?", questiona.A empresária ainda afirma que, quando vê uma cena dessas, tem vontade de arrancar o celular da mão da pessoa ou dar uma marretada no aparelho. "Pior é que, se você briga, você é ruim."
Walderez, quando espectadora, também briga por um ambiente silencioso tanto no teatro quanto no cinema, mas ressalta: "As pessoas estão tão mal educadas, que não aceitam. São capazes de brigar."
"Uma pessoa que vai ao teatro, senta na primeira fila e prefere ficar enviando e recebendo mensagens de texto enquanto estou no palco fazendo uma cena dramática, emocionada, essa pessoa precisa ser internada. É doente. Está confundindo a realidade concreta com a virtual. Já se tornou um vício. A pessoa não consegue ficar sem celular durante uma hora, duas horas. É um vício pior do que crack", afirma a atriz, que disse ficar profundamente irritada quando vê as luzes dos celulares ligadas na plateia. Para ela, a atitude é um desrespeito com o trabalho do ator. "A pessoa tem o direito de não gostar da peça, de ir embora, de vaiar no final, mas não tem o direito de me desrespeitar."
As reclamações diante do assunto são tão constantes na classe artística que Walderez relembra o dia em que Jô Soares desceu do palco irritado para atender ao telefone de um espectador que tocou durante a apresentação de uma de suas peças. "Ele foi lá e atendeu: 'Aqui é o Jô e seu amigo idiota não desligou o celular. Liga depois'. A culpa é do imbecil que não desligou. Agora tem o recurso do silencioso. Então você coloca e acha que não está prejudicando ninguém, mas está atrapalhando o espetáculo."
Existe solução?
Se antigamente muitos artistas preferiam estrear em São Paulo por ter um público mais exigente, hoje não há mais diferenças nas plateias de todas as cidades. Ao menos ao que se refere à educação nas poltronas. "É plateia do Rio, de São Paulo, onde for. A plateia é mal educada em qualquer lugar. A pessoa não tem o senso mesmo", afirma Célia. Ela defende, porém, fãs que costumam entrar em conversas paralelas quando seus ídolos entram no palco. "O problema não é com o público fã. Esse tem mais respeito."
Mas qual seria a solução para voltar a ter uma plateia concentrada e respeitosa? Em uma era em que o uso do celular é frequente em qualquer ambiente, Célia Forte diz acreditar que a única solução seria a longo prazo. Ou seja, educando. "É preciso falar bastante sobre o assunto, apresentar matérias como essa. Quanto mais as pessoas se tocam, mais elas ficam com vergonha. Elas precisam ficar envergonhadas para deixarem de fazer aquilo."
Walderez concorda e defende a campanha em prol da educação do espectador. "Você divulgar, falar, repetir até a exaustão. Tem que respeitar a pessoa que está no palco. Já tive experiência no palco em que uma pessoa colocava o tênis sujo em cima. Simplesmente dei um chute no tênis sujo e fiquei encarando o idiota. Ele não podia estar sentado daquela maneira. E quanto mais se falar a respeito, é melhor."
Cassio Scapin: 'A plateia está muito mal-educada'
Fonte: IG.
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