Levantamento do Ipea mostrou impacto do racismo na véspera do feriado de Zumbi
No
Dia de Zumbi, Frei David Santos, presidente da Educafro, defende cotas
para o serviço público federal e para cursos de pós-graduação nas
universidades
Foto: Alexandre Vieira / Agência O Dia
De acordo com os indicadores, 61,8 %
dos negros vítimas da violência não recorrem à polícia, contra 38,2% de
não negros. Entre a população negra, 60,3% não confiam na polícia e
60,7% temem represália. Entre não negros, os índices são 39,7% e 39,3,
respectivamente. A pesquisa revelou ainda que as mortes violentas
reduzem em dois anos a expectativa de vida dos negros no estado do Rio. O
impacto é duas vezes maior se comparado ao grupo de não negros.
Fontes de pesquisa
O estudo do Ipea foi baseado no Censo Demográfico de 2010 e em informações do Ministério da Justiça, que traçou o número de detentos negros no sistema prisional brasileiro. Segundo o levantamento, as cadeias brasileiras abrigavam 252.796 negros e 169.975 não negros. “A violência contra negros é herança das discriminações econômicas e raciais”, afirma o pesquisador Rodrigo de Moura.
Na faixa dos 10% mais pobres do Brasil, estão 11,66% dos negros e 5,41% dos brancos. Já entre os 10% mais ricos, aparecem 6,80% dos negros e 17,82% dos não negros. “O negro é duplamente discriminado no Brasil, por sua situação socioeconômica e por sua cor de pele”, analisa o pesquisador Daniel Cerqueira.
Para entidades ligadas ao movimento
negro, a celebração da morte de Zumbi dos Palmares, líder do maior
quilombo da História do Brasil, serve para reflexão. “Avançamos, mas há
muitos desafios”, diz Frei David Raimundo dos Santos, presidente da
Educafro. Ele defende cotas para negros no serviço público federal e
para cursos de pós-graduação nas universidades.
Frei David com ativistas em frente ao busto de Zumbi que fica na Avenida Presidente Vargas, no Centro
Foto: Alexandre Vieira / Agência O Dia
Entidades querem cotas em cursos de pós-graduação
Frei David aponta a luta pela implantação da
política de cotas para pós-graduação como uma de suas principais
bandeiras para o futuro. Departamentos de algumas universidades, como
UFRJ e Universidade de Brasília, já realizam ações afirmativas mesmo sem
uma lei. Ele conta que um jovem negro passou na primeira e segunda fases de processo de mestrado de uma universidade federal, mas foi reprovado na entrevista. “Perguntaram quem da família dele fez faculdade. Quando respondeu que era o primeiro, foi eliminado pela falta de tradição de estudo na família”, lembrou Frei David.
Já Lúcia Xavier, da ONG Criola, chama atenção para a falta de ações afirmativas para mulheres negras na saúde e no mercado de trabalho. “A maioria das domésticas são negras, e seus direitos estão em disputa”, diz Lúcia.
Pela reserva de vagas no serviço público
A falta de políticas públicas que diminuam a desigualdade histórica entre brancos e negros pode ser atenuada com a aprovação da lei que reserva 20% das vagas nos concursos públicos federais para negros e pardos. O projeto de lei está tramitando no Congresso Nacional.
“O Rio adotou essa medida em 2011, por pressão do movimento negro. Nossa energia está voltada para aprovação dessa lei, agora no âmbito federal”, declarou Frei David, que há mais de 20 anos atua na colocação de estudantes negros no Ensino Superior (já foram mais de 40 mil). Ele acha que a política de cotas é o grande avanço dos movimentos sociais no Brasil nos últimos 30 anos. “Em 10 anos, o negro entrou mais nas universidades do que nos últimos 500 anos. A questão étnica foi amortecida pela questão social”, diz.
Dia marcado por celebrações
O Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (Ceap) preparou para esta quarta-feira uma grande mostra de Cultura Afro-Brasileira, a Brasil Black II, no Centro Cultural João Nogueira (Imperator), no Méier. A partir das 13h, haverá lançamentos literários, sessão de filme, feira de afroempreendedores e uma Espaço de Beleza Afro que oferecerá aos visitantes confecções de tranças, maquiagens e dicas de cuidados com a pele e cabelos afros.
O prefeito Eduardo Paes reinaugura às 14h30 o Centro Cultural José Bonifácio, na Gamboa. O palacete, fundado em 1877 por Dom Pedro II como a primeira escola pública da América Latina, faz parte do Circuito Histórico da Herança Africana.
Fonte: O DIA
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